Carboidratos: Estrutura, Propriedades e Funções

 

Wilmo E. Francisco Júnior

Originalmente publicado em Química Nova na Escola, 29, agosto 2008

Apoio: Sociedade Brasileira de Química

Edição: Leila Cardoso Teruya

Coordenação: Guilherme Andrade Marson

Os carboidratos perfazem a mais abundante classe de biomoléculas da face da Terra. Sua oxidação é o principal meio de abastecimento energético da maioria das células não fotossintéticas. Além do suprimento energético, os carboidratos atuam como elementos estruturais da parede celular e como sinalizadores no organismo. Entretanto, tal tema não é comumente debatido no Ensino Médio. Livros didáticos de Química em nível médio geralmente abordam a Bioquímica de forma superficial, apresentando sérios equívocos conceituais, inclusive acerca dos carboidratos, além de praticamente não proporem atividades experimentais (Francisco Jr., 2008b). Com o propósito de prover alguns importantes conceitos, de forma mais ampla e rigorosa, o presente artigo reporta as principais propriedades e funções dos carboidratos, bem como atividades experimentais para o estudo de algumas propriedades físico-químicas.

O que são carboidratos?

Carboidratos são poliidroxialdeídos ou poliidroxicetonas (Figura 1) ou substâncias que liberam tais compostos por hidrólise. O termo sacarídeo é derivado do grego sakcharon que significa açúcar. Por isso, são assim denominados, embora nem todos apresentem sabor adocicado. O termo carboidratos denota hidratos de carbono, designação oriunda da fórmula geral (CH2O)n apresentada pela maioria dessas moléculas. Podem ser divididos em três classes principais de acordo com o número de ligações glicosídicas: monossacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos.

Figura 1: Moléculas de lactose (A) e sacarose (B), dois importantes dissacarídeos encontrados na cana e no leite, respectivamente.

Figura 1: Moléculas de lactose (A) e sacarose (B), dois importantes dissacarídeos encontrados na cana e no leite, respectivamente.

Os monossacarídeos

A Figura 1 mostra a glicose e a frutose, os dois monossacarídeos mais abundantes na natureza. Glicose e frutose são os principais açúcares de muitas frutas, como uva, maçã, laranja, pêssego etc. A presença da glicose e da frutose possibilita, devido à fermentação, a produção de bebidas como o vinho e as sidras, cujo processo é anaeróbio e envolve a ação de microorganismos. Nesse processo, os monossacarídeos são convertidos, principalmente, em etanol e dióxido de carbono com liberação de energia.

Nos seres humanos, o metabolismo da glicose é a principal forma de suprimento energético. A partir da glicose, uma série de intermediários metabólicos pode ser suprida, como esqueletos carbônicos de aminoácidos, nucleotídeos, ácidos graxos etc.

Os monossacarídeos consistem somente de uma unidade de poliidroxialdeídos ou cetonas, as quais podem ter de três a sete átomos de carbono. Devido à alta polaridade, são sólidos cristalinos em temperatura ambiente, solúveis em água e insolúveis em solventes não polares. Suas estruturas são configuradas por uma cadeia carbônica não ramificada, na qual um dos átomos de carbono é unido por meio de uma dupla ligação a um átomo de oxigênio, constituindo assim um grupo carbonila. O restante dos átomos de carbono possui um grupo hidroxila (daí a denominação de poliidroxi). Quando o grupo carbonila está na extremidade da cadeia, o monossacarídeo é uma aldose. Caso o grupo carbonila esteja em outra posição, o monossacarídeo é uma cetose.

Por maior simplicidade, os monossacarídeos são representados na forma de cadeia linear. Todavia, aldoses com quatro carbonos e todos os monossacarídeos com cinco ou mais átomos de carbono apresentam-se predominantemente em estruturas cíclicas quando em soluções aquosas. Outra importante característica dos monossacarídeos é a presença de pelo menos um carbono assimétrico (com exceção da diidroxicetona), fazendo com que eles ocorram em formas isoméricas oticamente ativas.

Uma importante propriedade dos monossacarídeos é a capacidade de serem oxidados por íons cúpricos (Cu2+) e férricos (Fe3+). Os açúcares com tal propriedade são denominados açúcares redutores. O grupo carbonila é oxidado a carboxila com a concomitante redução, por exemplo, do íon cúprico (Cu2+) a cuproso (Cu+). Tal princípio é útil na análise de açúcares e, por muitos anos, foi utilizado na determinação dos níveis de glicose no sangue e na urina como diagnóstico da diabetes melito.

Figura 2: Moléculas de lactose (A) e sacarose (B), dois importantes dissacarídeos encontrados na cana e no leite, respectivamente.

Figura 2: Moléculas de lactose (A) e sacarose (B), dois importantes dissacarídeos encontrados na cana e no leite, respectivamente.

Oligossacarídeos

Os oligossacarídeos são formados por cadeias curtas de monossacarídeos. Os mais comuns são os dissacarídeos, dos quais se destacam a sacarose (açúcar da cana) e a lactose (açúcar do leite), ambos representados na Figura 2.

A sacarose é hoje no Brasil um dos mais importantes produtos devido à produção do álcool combustível, cuja obtenção se dá também por fermentação. A primeira etapa é a hidrólise da sacarose, da qual se obtém uma mistura de glicose e frutose, também conhecida por açúcar invertido, comumente utilizado na fabricação de doces, para evitar a cristalização da sacarose e conferir maior maciez ao doce. O termo invertido é empregado porque, após a hidrólise, o desvio da luz polarizada sofre inversão de sentido, inicialmente para a direita e, após a hidrólise, para a esquerda.

A etapa seguinte consiste na fermentação, semelhante à da produção de bebidas alcoólicas. Aspectos concernentes à produção de álcool, desde as questões químicas, até questões econômicas, políticas e sociais, podem adentrar a sala de aula a partir de textos de jornais e revistas bem como reportagens televisivas. A lactose também pode sofrer fermentação. O processo de fermentação láctea é utilizado na produção de queijos e iogurtes. O tipo de produto depende do microorganismo empregado.

Os dissacarídeos têm em sua composição dois monossacarídeos unidos por uma ligação denominada glicosídica, as quais são hidrolisadas facilmente pelo aquecimento com ácido diluído. Tal ligação ocorre pela condensação entre o grupo hidroxila de um monossacarídeo com o carbono anomérico1 de outro monossacarídeo. A extremidade na qual se localiza o carbono anomérico é a extremidade redutora. Quando o carbono anomérico de ambos os monossacarídeos reage para formar a ligação glicosídica, o açúcar não é mais redutor. Esse é o caso da sacarose (uma molécula de glicose e outra de frutose).

A lactose (uma molécula de galactose e outra de glicose) comporta-se, diferentemente da sacarose, como açúcar redutor, pois o carbono anomérico encontra-se disponível.

Polissacarídeos

Açúcares contendo mais de 20 unidades são denominados polissacarídeos, os quais podem possuir milhares de monossacarídeos e são a forma predominante dos carboidratos na natureza. A diferenciação é dada pela unidade monomérica, comprimento e ramificação das cadeias. Quando os polissacarídeos contêm apenas um tipo de monossacarídeo, ele é denominado de homopolissacarídeo. Se estiverem presentes dois ou mais tipos de monossacarídeos, o resultado é um heteropolissacarídeo.

Figura 3: Representação da cadeia de amilose (A) e amilopectina (B).

Figura 3: Representação da cadeia de amilose (A) e amilopectina (B).

Homopolissacarídeos

Amido e glicogênio encerram funções preponderantes de armazenamento energético, sendo o primeiro nas células vegetais e o segundo nas células animais. O amido é composto por dois tipos de polímeros de glicose: a amilose e a amilopectina. A diferença básica entre estes é a ramificação da cadeia (Figura 3). Ambos possuem cadeias nas quais as unidades de glicose se unem mediante ligações (α1→ 4)2. Por sua vez, a amilopectina apresenta pontos de ramificação com ligações glicosídicas (α1→ 6). Tais ramificações são encontradas de 24 a 30 unidades de glicose na cadeia principal. Amido e glicogênio são altamente hidratados devido à quantidade de hidroxilas que formam ligações de hidrogênio com a água. A estrutura do glicogênio é similar à amilopectina. A diferença é a freqüência de ramificações, as quais aparecem de 8 a 12 unidades de glicose.

A celulose (Figura 4), outro importante polissacarídeo, é encontrada na parede celular vegetal, perfazendo grande parte da massa da madeira e quase 100% da massa do algodão. A fixação do CO2 pelos vegetais leva quase exclusivamente à produção de celulose. A celulose é uma substância fibrosa, resistente e insolúvel em água, sendo formada por unidades de glicose conectadas mediante ligações (β1→ 4), que lhe impele propriedades estruturais características. Na celulose, as unidades de glicose formam cadeias retas e estendidas as quais se dispõem lado a lado, engendrando uma estrutura em fibras estabilizada por ligações de hidrogênio intra e intercadeias. Tal estrutura em fibras confere maior resistência à celulose.

Figura 4: Cadeia de celulose com ligações (β1→ 4) e destaque para as ligações de hidrogênio responsáveis pela rigidez estrutural.

Figura 4: Cadeia de celulose com ligações (β1→ 4) e destaque para as ligações de hidrogênio responsáveis pela rigidez estrutural.

Heteropolissacarídeos e glicoconjugados

Heteropolissacarídeos aparecem ligados a proteínas fibrosas, as glicosaminas, sendo componentes essenciais de tendões e cartilagens. Um carboidrato também é habitualmente ligado às proteínas ou aos lipídeos formando um glicoconjugado, isto é, uma molécula biologicamente ativa, que atua no endereçamento de proteínas e no reconhecimento e na adesão de células.

Considerações finais

Os experimentos aqui propostos são de fácil realização e podem ser utilizados para a introdução ou revisão de alguns conceitos químicos, especialmente no que diz respeito à compreensão de conceitos científicos relacionados aos carboidratos. Por isso, acredita-se que o presente trabalho é uma importante ferramenta para os professores de Química, pois vem suprir parte da lacuna existente na maioria dos livros didáticos, como aponta Francisco Jr. (2008b), no que tange a rigorosidade dos conceitos e a proposta de abordagens experimentais. Ademais, os materiais empregados são alternativos, possibilitando a realização dos experimentos em escolas as quais não disponham de laboratório.

Outra consideração importante é acerca da abordagem experimental sugerida, que intenta privilegiar o registro escrito sistematizado e a discussão dos resultados experimentais com base nas hipóteses e explicações elaboradas pelos estudantes. Além disso, tal abordagem experimental é uma forma de introduzir conceitos químicos a partir da Bioquímica, podendo até ser aplicada em cursos introdutórios dessa disciplina em nível superior. Obviamente, outras questões e discussões podem ser realizadas além daquelas sugeridas.

Notas

1. Carbono anomérico é aquele no qual está presente o grupo carbonila.

2. α e β representam as configurações dos estereoisômeros que diferem apenas na estereoquímica em torno do carbono anomérico.

3. O artigo originalmente apresenta experimentos que podem ser consultados na seção Sala de Aula.

  • Referências

    1. DAZZANI, M.; CORREIA, P.R.M.; OLIVEIRA, P.V. e MARCONDES, M.E.R. Explorando a Química na determinação do teor de álcool na gasolina. Química Nova na Escola, n. 17, p. 42-45, 2003.

    2. FRANCISCO JR., W.E. Experimentação, modelos e analogias no ensino da deposição metálica espontânea: uma aproximação entre Paulo Freire e aulas de Química. 2008. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2008a.

    3. Bioquímica no Ensino Médio?! (De)Limitações a partir da análise de alguns livros didáticos de Química. Ciência & Ensino, 2008b.

    4. HARRIS, D.C. Análise química quantitativa. Trad. C.A.S Riehl e A.W.S Guarino. 5ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 2001.

    5. OLIVEIRA, R.O.; SANTA MARIA, L.C.; MERÇON, F. e AGUIAR, M.R.M.P. Preparo e emprego do reagente de Benedict na análise de açúcares: uma proposta para o ensino de Química Orgânica. Química Nova na Escola, n. 23, p. 41-42, 2006.

  • Saiba Mais

    1. FRANSCISCO JR., W.E. Carboidratos: Estrutura, Propriedades e Funções. Química Nova na Escola, n. 29, p. 8-13, 2008.
      qnesc.sbq.org.br/online/qnesc29/03-CCD-2907.pdf

    2. DAZZANI, M.; CORREIA, P.R.M.; OLIVEIRA, P.V. e MARCONDES, M.E.R. Explorando a Química na determinação do teor de álcool na gasolina. Química Nova na Escola, n. 17, p. 42-45, 2003.
      qnesc.sbq.org.br/online/qnesc17/a11.pdf

    3. OLIVEIRA, R.O.; SANTA MARIA, L.C.; MERÇON, F. e AGUIAR, M.R.M.P. Preparo e emprego do reagente de Benedict na análise de açúcares: uma proposta para o ensino de Química Orgânica. Química Nova na Escola, n. 23, p. 41-42, 2006.
      qnesc.sbq.org.br/online/qnesc23/a10.pdf

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Publicado em 25/01/2011, em Conceitos Químicos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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