New Deal e o PAC – Revista Carta Capital

Similitudes

Delfim Netto18 de outubro de 2010 às 12:28h

Qualquer semelhança entre a agressão da mídia aos programas de Lula e as reações ao New Deal, nos anos 30, não é só coincidência. Por Delfim Netto. Foto: Agência Brasil

Qualquer semelhança entre a agressão da mídia aos programas de Lula e as reações ao New Deal, nos anos 30, não é só coincidência

Em abril de 2008, escrevi um comentário comparando o PAC e o Fome Zero do governo Lula aos programas de obras públicas e de combate ao desemprego abrigados sob o guarda-chuva do New Deal de F.D. Roosevelt, o presidente que conseguiu tirar a economia americana da Grande Depressão produzida a partir da quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929. Três quartos de século separam essas experiências: na primeira metade da década 1930-1940, os Estados Unidos e o mundo mergulharam numa crise sem precedentes.

Quando Roosevelt tomou posse, em 1933, para seu primeiro mandato, o PIB americano tinha sido reduzido a praticamente a metade (56,4 bilhões de dólares) do que era em 1929 (103 bilhões de dólares).

Apesar da tragédia do desemprego, que chegava a 30% da força de trabalho, os EUA eram uma nação próspera. Havia muita riqueza e uma boa parte da sociedade afluente aceitava o desemprego como contingência natural numa economia de mercado. A melhor coisa que os governos deviam fazer era ficar fora disso.

Roosevelt surpreendeu, já no discurso de posse, anunciando o fim da era da indiferença: “Temos 15 milhões de sujeitos passando fome e nós vamos dar de comer a eles. O governo entende que é sua obrigação providenciar trabalho para que eles mesmos voltem a sustentar suas famílias”.

Para escândalo de muitos, seu governo colocou em marcha dois enormes programas, nunca antes tentados naquele país, de amparo ao trabalho e combate à miséria, com investimentos públicos em obras, cuja principal prioridade era a absorção de mão de obra (uma espécie de PAC). O empreendimento-símbolo foi a criação da TVA (Tennessee Valley Authority), que construiu barragens para a produção de energia e gerenciou os projetos de irrigação para a produção de alimentos.

Esses programas sofreram pesado bombardeio da oposição conservadora, que, a título de defender a livre iniciativa, esconjurava a ingerência estatal no setor privado, porque interferia na oferta e procura de mão de obra, desvirtuando o funcionamento do mercado de trabalho… Um dado interessante é que os ataques da mídia republicana evitavam agredir o presidente (e seus altos níveis de popularidade), concentrando toda a fúria na figura de Harry Hopkins, principal mentor dos programas de amparo ao trabalhador e gerente das obras públicas, qualificado de “perigoso socialista”. Qualquer semelhança com agressões midiáticas recentes aos programas Fome Zero, Luz para Todos e ao PAC não é simples coincidência…

Hoje, ninguém duvida que o New Deal foi decisivo para a reconstrução da confiança dos americanos nos fundamentos do regime de economia de mercado. Suas ações ajudaram a salvar o capitalismo, na medida em que os milhões de trabalhadores que recuperaram os empregos voltaram “a acreditar na vontade e na capacidade do governo de intervir na economia para proporcionar uma igualdade mais substancial de oportunidades” (FDR numa de suas falas no rádio, Conversa ao Pé do Fogo.)

O fato é que o PIB americano cresceu durante o primeiro e segundo mandatos e, em 1940, havia recuperado o nível que perdera desde o início da grande crise, medindo 101,4 bilhões de dólares. Roosevelt completou um terceiro período presidencial e ainda foi eleito (no fim da Segunda Guerra Mundial), para um quarto mandato, mas faleceu antes de exercê-lo.

Quando Lula assumiu o primeiro mandato, em 2002, a economia brasileira não estava na situação desesperadora da americana de 1933, mas contabilizava algo como 12% de desemprego da população economicamente ativa e vinha de um período de quase 20 anos de medíocre crescimento, com a renda per capita praticamente estagnada. Seu governo pôs em prática os programas de combate à fome que prometera no prólogo de sua Carta aos Brasileiros e posteriormente o PAC, que soma o investimento público e obras privadas, com foco na recuperação da desgastada infraestrutura de transportes, da matriz energética e na indústria da habitação. Setores de grande demanda de mão de obra e de promoção do desenvolvimento.

Oito anos depois (e 15 milhões de empregos a mais), os resultados são visíveis: queda acentuada das taxas do desemprego (para menos de 7% da população economicamente ativa), crescimento da renda e dos níveis de consumo da população, recuperação da autoestima do trabalhador e uma sociedade que adquiriu condições de oferecer uma substancial melhora na distribuição de oportunidades. Isso, tendo atravessado a segunda pior crise da economia mundial dos últimos 80 anos, com o PIB crescendo em 2010 acima de 7%.

Delfim Netto

Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

17 Respostas para “Similitudes”
  • antonio disse:

    18 de outubro de 2010 às 12:46

    é, só que aqui no brasil varonil, privatizaram a régis bittencourt e deram bolsa família para as pessoas ficarem em casa.

  • antonio disse:

    18 de outubro de 2010 às 12:50

    eu assisti o debate ontem e tive que rir quando a candidata disse que o atual presidente é o “..o melhor presidente que o Brasil jamais teve…” hahauhauhauahuaha

  • HUMBERTO JOSE MACIAS disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:00

    Com toda essa explicação, para a melhoria acentuada do povo Brasileiro. O que se fazer com o risco dos NEO liberais voltarem e colocarem tudo a perder!

  • montebello disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:01

    INACREDITAVEL. DELFIM NETO , defendendo LULA, virou exemplo de sensatez este defim?

  • Arturo disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:15

    O PSDB é isso mesmo neo-liberalismo, ou seja, que se dane o povo! Querem criar uma situação que não existe no governo Lula. A incompetência do FHC e seus ministros incluindo o Serra estagnou a economia brasileira, o emprego e o consumo! Olha que eles tiveram 8 anos no poder! Agora, como não tem o que dizer da exemplar administração Lula, tentam, da forma mais asquerosa, ganhar no grito as eleições! Povo! O Brasil não é só São Paulo, vamos nos unir e votar na continuidade de nossos progressos, nossos projetos pessoais, nossa alta-estima, vamos prestigiar o Governo que tirou mais de 26 milhões da pobreza, que elevou de classe mais de 36 milhões de brasileiros, que criou mais de 15 milhões de empregos formais! Vamos votar no 13, vamos de Dilma!

  • Robson Fonseca disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:20

    Sem comentários, e depois alguns vem dizer que não houve diferenças entre governos, para né, se olhe no espelho e veja qual idiota está sendo pra si mesmo ao defender o governo do fhc se comparado ao do lula.
    Dilma presidente pra continuar o projeto Brasil lançado por Lula.

  • olvers disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:27

    Até que enfim o ministro da economia da ditura militar , responsável pela divisao do tal bolo daquela época cuja a fatia infima o trabalhador nem sentiu o cheiro, muito menos a degustou , reconhece o trabalho do governo Lula.O mundo dá voltas …. quem diria.Mas parabenizo Delfin Neto pela atitude..Antes tarde do que nunca…

  • lenir vicente disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:31

    Aqui em Juiz de Fora a Carta só chega aos domingos e o dono da banca sempre guarda a minha.É por ele que eu não faço a assinatura da revista.Quando li o comentário do Delfin Neto eu fiquei muito satiisfeita com a visão clara do ex-ministro, uma pessoa acima de qualquer suspeita.É aquilo que a economista Maria da Conceisão dizia do Lula;”o maior intelectual orgâncio deste país”.Eu achei muito bacana essa definição dela.Com suas ações, sua coragem sua visão de mundo, da história mundial, nosso Presidente viu na hora o que tinha de fazer e o fez, com a ajuda de Dilma, sua verdadeira “comandante em chefe”, e claro de todos os seus Ministros.Ah, me digam ,se não é prá gente ter um baita orgulho desse Presidente Metalúrgico?Lí o texto do Dilfin Neto para meu irmão, que é metalúrgico9 e os olhos dele se encheram de lágruimas.Ele viveu 16 anos nos EEUU.Foi um dos que foram embora do país na época do Sarney.Voltou em 96 e , como já era metalúrgico de manutenção, fez alguns cursinho de aperfeiçoamento no SENAI.Penou muito até Lula chegar ao governo.Ai foi trabalhar nas plataformas da Petrobrás, como terceirizado.Hoje trabalho na Mendes Junior, em Juiz de Fora, ela presta serviço para a Votarantim.Ver meu irmão se emocionar com o artigo do Delfim sobre o Lula foi muito bonito.Sr.Delfin Neto muito obrigada por dizer e confirmar o que Presidente LUla fez por nosso país.Seu artigo deveria ser mencionado em salas de aula para que os estudantes fizessem uma comparação como a que o sr, fez.Um abraço fraterno.Pro cê tb. Mino .Eu achei muito oportuno colocares o artiigo no seu blog já hoje.Era o que eu falava com meu irmão ontem , porque a revista não chega a varias partes do país.Obrigada Mino.

  • Bruno Gomes disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:37

    A Igreja católica,o PSDB e o PiG são sujos, dão nojo!
    Que democracia é essa onde a imprensa(PiG – Partido da Imprensa Golpista) apóia e faz campanha para o Serra? Onde a Igreja usa a fé em favor de interesses da burguesia e faz campanha pró Serra?
    Tem que mandar fechar essas empresas golpistas, ai sim aparecera a verdadeira democracia e não a DEMocracia!
    Dilma 13 neles!!!

  • Rodrigo Graziani disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:44

    Parabéns Professor pela clareza e relevância do artigo.

    Gostaria de destacar apenas dois pontos:

    – longe de querer desmerecer a incrível virada de mesa dirigida pelo governo Roosevelt, acrescento que apesar da crise proveniente do capitalismo irresponsável de 1929, os Estados Unidos já tinham construído o sustentáculo da grande potência que se tornaram no século XX. Mérito das reformas de base (parafraseando Jango), principalmente da Reforma Agrária de 1840, que segundo relato do Geografo Josué de Castro no clássico Geografia da Fome, foi a grande responsável pela criação da dinámica interna de mercado, gerando o próspero estado da Califórnia, e um grande país;
    – As Reformas de Base interrompidas criminosamente em 1964 pelos guadiões da hipocrisia, devem ser implementadas pelo governo de Dilma que espero que seja eleita; caso contrário (Serra eleito /toc toc) não voltaremos aos 08 anos de FHC, más sim aos 500 anos do saudoso brasil colônia da NEO-UDN. Isto não é uma hipótese, más uma certeza pelo tom anacrônico e leviano como está sendo conduzida esta eleição, por parte dos privatizadores da verdade, que acreditam piamente que seu candidato (o “jenio”) criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, afinal ninguém é de ferro.

  • José Iranildo Dantas disse:

    18 de outubro de 2010 às 13:55

    Só a PIG e o PSDB não qurem ver que o Brasil de 2010 é muito melhor que o Brasil de 2002.

  • JOÃO CARLOS disse:

    18 de outubro de 2010 às 14:09

    ESSAS NOTÍCIAS Ñ SAEM NO PIG.

  • De Marco Bernardo disse:

    18 de outubro de 2010 às 14:13

    Parabéns Delfim Neto pelo belo texto. É uma pena que neste PAÍS a dita grande mídia não reconhece ou não quer reconhecer a ótima contribuição que o governo do Presidente Lula deu ao nosso PAÍS.Eles preferem criar factóides à reconhecer o que é óbvio.

  • Maciel Wobeto disse:

    18 de outubro de 2010 às 14:50

    Olha Parabens ao artigo do Delfin, mas como ele é cadetratico em economia, é incrivel porque não cita a diferença que a economica apresentava até na epoca que ele foi ministro, como foi a implantação do plano real? e não tivesse o plano real como estaria a economia hoje? quando temos um emprego estavel, conseguimos planejar e comprar o que queremos, e tambem como formador de opnião, porque não fala quanto cresceu a divida brasileira no periodo pós FHC, e se este crescimento é correto. Se é um bom professor transmita mais conhecimentos e não opiniões contaminadas.

  • Gisela disse:

    18 de outubro de 2010 às 14:53

    Pois é…. O mundo dá muitas voltas… Quem diria Dr. Delfim.

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Publicado em 18/10/2010, em Atualidades. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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